Introvertidos, melhorem
Ou um ensaio sobre o moralismo da timidez na internet
Uma das coisas que mais me irritam na internet - e eu sei que eu estou sempre falando de coisas que me irritam na internet - é a necessidade profunda das pessoas de se fazerem caber em caixinhas. Vejam, eu sei tanto dos algoritmos e publicidade direcionada que favorecem esse tipo de coisa quanto dos testes da Capricho que mostram que querer se definir não é nada de novo. Quando eu era adolescente, eu vivia me olhando na frente do espelho e tentando definir se eu era gótica, ou meio punk, mas o que fazer com a vibe meio hippie que eu gosto de ter às vezes? E se eu fosse só indie? É natural, todo mundo faz isso, mas o ponto é, justamente, que eu era adolescente. Crescer deveria ser perder a necessidade de caber no modelo.
E, ainda assim, todo dia na internet as pessoas querem ser Uma Coisa e sinceramente horóscopo acaba sendo a menos pior dessas classificações. As pessoas são Filhas Mais Velhas, Tipo A e Tipo B, minimalistas, maximalistas e, minha verdadeira irritação e tema dessa newsletter, introvertidas ou extrovertidas.
Como alguém que foi profundamente esquisita, e bastante perseguida por isso, na escola, eu entendo de verdade o impulso de transformar algo que um dia foi uma fraqueza em motivo de orgulho, em adotar deliberadamente um rótulo que antes era imposto a você. De verdade, eu entendo. Mas pessoas adultas precisam parar de buscar explicação para todas as suas características e apenas serem. E, mais do que isso, precisam parar de achar que não confrontar suas dificuldades e se enfiar em casa te torna, de qualquer forma que seja, moral ou intelectualmente superior a quem quer que seja.
Porque o que me irrita não é apenas as pessoas se dizerem introvertidas e apontarem o dedo para “vocês, os extrovertidos” (eu conheço apenas uma unidade de pessoa que se classificaria deliberadamente como extrovertida nesses termos e talvez esse seja o menor dos problemas dela), é que de alguma maneira essa classificação se tornou sinônimo de ser mais profundo, mais sensível, mais artístico, mais intelectual, melhor do que você. O que é só moralista. E conservador.
Sendo justa com os pobres introvertidos, não são só eles que se apegam a uma identidade como se ela fosse a explicação da existência, nem só eles que dizem que isso os torna especial de alguma maneira. Eu não quero entrar na discussão de se as pessoas são hiper diagnosticadas ou não (eu acho que são, mas nem vem ao caso), mas da relação delas com o diagnóstico. Um laudo deveria servir para você ganhar conhecimento de si mesmo, saber o que esperar em determinadas situações, poder olhar melhor para si mesmo e ter mais ferramentas para navegar o mundo sendo como você é. Um diagnóstico não deveria ser uma armadura, uma lista de traços imutáveis e inegociáveis, um eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim, Gabrieeeeela.
Se eu fosse freudiana de verdade, e não só recreativamente, eu talvez dissesse que há um recalque nessa formulação, que as pessoas ainda sentem muitas coisas, inclusive a própria timidez, como perdas e se convencem de que os ganhos superam as coisas que elas não estão vivendo. Quem sou eu para julgar qualquer mecanismo de defesa que seja, mas eu vou analisar mesmo assim porque é como essa newsletter se paga, não é fácil ser a Carrie Bradshaw da Santa Cecília.
Nesse gancho, é claro que o trabalho intelectual requer horas de bunda na cadeira, silêncio, dedicação, se afastar do mundo para estar com os próprios pensamentos e organizá-los, colocar no papel. A pesquisa, mas também os diversos tipos de arte e as muitas formas de escrita exigem um tempo fora do mundo, só você e a folha em branco metafórica e, portanto, é claro que se saem melhor as pessoas capazes de sustentar essas horas de isolamento e quietude. Eu sou tradutora, escritora e acadêmica, todas essas profissões cujo grosso do tempo é passado de forma bastante solitária e que não podem, de forma alguma, abrir mão disso. Tudo isso é verdade. Mas, por outro lado, se você nunca sai para o mundo você vai escrever sobre o que? Vai pensar sobre o que?
Meu maior problema com essa auto-intitulação dos introvertidos (e notem que eu ainda nem questionei essa dicotomia) como os intelectuais é que na minha experiência as ideias acontecem não quando você está trancado no quarto, mas ao contrário. É no mundo que suas opiniões são testadas, é na troca com os outros que conexões são feitas, é, muitas vezes, em uma mesa de bar que sua ideia mais ousada encontra lastro.
Não é a toa que até muito pouco tempo atrás a intelectualidade, a classe artística e boemia eram inseparáveis. Pense na Paris dos anos 20, ou no Chelsea Hotel dos anos 60, a Londres dos anos 70, todos esses lugares e épocas em que gente com repertório, com ideias e com sensibilidade convergiu e trocou e colaborou e conversou. A ideia de geração literária nasce daí, do agrupamento de escritores que não tinham características em comum apenas por acaso histórico, mas porque eles estavam efetivamente influenciando o trabalho um do outro.
Como eu disse, eu fui uma adolescente esquisita, odiando e odiada por quase tudo ao meu redor e, portanto, foi um choque para mim mesma quando, após anos preferindo morrer a fazer um trabalho em grupo na escola, eu descobri que gostava de colaborar. Que adoro um grupo de estudos, que no mestrado e no doutorado eu fiz mais disciplinas do que precisava só porque me alimentava mentalmente sair de casa e ter discussões, que o eixo teórico do meu doutorado não me encontrou de fones de ouvido na biblioteca, mas em uma conversa na Tia Bia. Que o outro é, na verdade, estimulante.
Os introvertidos da internet adoram dizer que não suportam conversa fiada e na verdade eu conheço muito pouca gente que gosta de bater papo sobre clima no elevador, mas vou admitir que já estive em muitas rodas onde de fato a conversa era monótona. Acontece que nenhuma dessas rodas eram formada pelos meus amigos, pelas pessoas que eu gosto e que vejo sempre. Eu também gosto de conversas profundas, é por isso que eu encho minha vida social com elas.
Essa ideia do gênio isolado em sua torre, trabalhando sozinho no quarto, incapaz de se conectar com o resto da humanidade, isolado com seus pensamentos enormes é, além de tudo, machista e liberal. A criação, artística ou intelectual, se dá em rede e ignorar isso só é lucrativo para um Tolstói que pode esconder que a escrita de Guerra e Paz depende tanto de seu talento quanto de sua esposa. Não é a toa que quem eu mais vejo se beneficiar de pensar o trabalho mental como troca são as mulheres.
Longe de mim nesse momento da vida enaltecer meu talento intelectual ou mesmo a rotina que eu tive enquanto chegava até aqui, meu mestrado foi escrito no auge de um surto psicótico e ninguém precisa passar por isso. Porém, meus momentos mais saudáveis (e eu sei que é difícil de acreditar, mas eles existem) foram épocas de vida social intensa, de trabalhar em bons horários e ver minhas amigas à noite, de ler Edward Said durante a semana e ir para a balada no sábado. Eu sempre fui uma party girl inveterada e eu não acho isso de forma alguma contraditório com a vida intelectual, com minha vontade de pensar o mundo.
Porque é na rua que eu encontro as coisas sobre as quais pensar. Que eu vivo o desejo e a memória e a identidade e todas as coisas que são meus temas em várias frentes. É porque eu passo tanto tempo da minha vida fora da internet quanto dentro dela que eu consigo olhar para os comportamentos online como objeto passível de análise e eu sei porque houve épocas em que eu estive presa ao meu celular e tudo começa a parecer com uma câmara de eco em que o que qualquer idiota do twitter diz ganha estatuto de verdade. Aí você sai de casa e uma janela no seu pensamento se abre.
Você sai de casa e fala de literatura enquanto garrafas de cerveja se empilham. Só nos últimos dois meses eu conversei em mesas de bar sobre as origens do formato atual da educação para o holocausto, formas literárias contemporâneas, moralismo e relação das gerações atuais com sexo e mais um monte de coisas que eu sei que eram sérias, mas não lembro o que eram porque estava bêbada.
Claro, Kant foi um virgem que só conversava com os próprios poodles, mas Sartre foi um homem que gostava de coquetéis de champanhe, sentar em mesas de café, mulheres bonitas, festas e, principalmente, bater papo. Em Memórias de Uma Moça Bem-Comportada (que vai ganhar sua própria newsletter breve), Simone de Beauvoir fala muitas vezes de como seu intelecto se formou tanto nas conversas com amigos quanto na sala de estudos da Biblioteca Nacional. E eu realmente não acho que algum auto-intitulado introvertido da internet está escrevendo O Ser e o Nada.
No fundo todas as pessoas querem sair às vezes e outras preferem estar em casa no sofá e é claro que a frequência dessas vontades varia de pessoa para pessoa. Do mesmo jeito, todo mundo tem interações das quais sai se sentindo drenado e outras que estimulam e, de novo, o formato de cada uma muda. Não é uma exclusividade dos escolhidos se sentir exausto ao passar tempo com certas pessoas, é só uma questão de descobrir com quem isso não acontece.
Mas imagina a internet achar que as pessoas não são de UM jeito e cabem em uma caixinha e, pelo contrário, são contraditórias?








Como pode estar tão certa em todos os assuntos? hahah to curtindo muito ler suas news
Acho que essa é a melhor newsletter que eu acompanho na internet <3