Da janela

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Medusa

Um ensaio sobre A Professora de Piano e ambição

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Isadora Sinay
jun 10, 2026
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É possível que de todas as insanidades que já saíram nessa newsletter, essa seja a que vai fazer alguém questionar se eu deveria mesmo ser um ser humano que caminha livremente pelo mundo, mas o Michael Haneke é um dos meus diretores preferidos desde que eu vi Funny Games pela primeira vez. Vejam que não foi Amor, um filme aterrorizante, mas bonito, comovente, e no qual eu levei um pobre cara desavisado em um date. Nem mesmo A Professora de Piano, que é o tema dessa newsletter na verdade e que se justificaria só pela Isabelle Huppert. Não, eu decidi que ia correr atrás de tudo que esse cara fizesse quando eu vi dois adolescentes torturarem uma família.

O que me encantou em Funny Games (a versão alemã, aliás) foi a violência, mas não porque ela era gráfica ou explícita. Qualquer filme do Tarantino ou do Park Chan Wook tem mais sangue e membros decepados do que esse e, ainda assim, eles são menos violentos porque em ambos a agressão tem um propósito. Mesmo qualquer slasher da vida se sente obrigado a dar um trauma primordial ao seu assassino ou pelo menos colocá-lo tão longe no espectro da psicopatia que ele se torna incapaz de conviver em sociedade. Ninguém abriria a porta para o leatherface de livre e espontânea vontade, você espiaria pelo olho mágico e saberia que algo está errado. Mas é com a família abrindo a porta para dois meninos perfeitamente funcionais que Funny Games começa.

O Haneke é o cineasta mais violento que eu já encontrei porque o que interessa a ele são os mecanismos internos da tortura, o que na gente se satisfaz quando impomos sofrimento a um outro. Porque é claro que algo se satisfaz, porque é claro que é uma pergunta filosófica relevante o que aconteceria se nós só soltássemos nosso impulso de agressão. Não é a toa que A Fita Branca é talvez o filme mais importante sobre o nazismo que alguém poderia fazer.

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