O Silêncio
Algumas ideias sobre Hamnet, o obituário do Bergman e mortalidade
É perfeitamente possível que de todos os textos que existem no mundo, de todas as milhares - milhões - de páginas de texto que eu já li na minha vida, o que mais me assombra seja o obituário que o Woody Allen escreveu para o Bergman: The man who asked hard questions. Ele começa contando que estava filmando Vicky Cristina Barcelona quando recebeu a notícia e eu me lembro também desse dia: 2007, meu segundo ano da faculdade de cinema, fim de um mês de julho que eu tinha passado boa parte em Paris, o Bergman e o Antonioni mortos no mesmo dia, nós voltando para a sala de aula como se nada ali fizesse sentido mais.
Foi uma experiência, eu acho, ser estudante de cinema nesse dia, ler todos os textos sobre como uma certa versão da arte morria ali. Parecida com estar no Guggenheim, diante de um Kandinsky, e ver o museu inteiro receber o alerta de que a Joan Didion tinha morrido: é sempre coletiva, a perda dessas figuras. É também sempre pessoal. Quando o Bergman morreu, ele ainda não era tão claramente minha linhagem, mas quando Didion morreu as pessoas me mandaram mensagem como se fosse minha avó. Quando a Joni Mitchell morrer eu vou, honestamente, sentir o fim de uma possibilidade de ser mulher e artista.
Mas enfim, o obituário. O Woody Allen comenta que estava em Oviedo e então diz:
I’ve said it before to people who have a romanticized view of the artist and hold creation sacred: In the end, your art doesn’t save you. No matter what sublime works you fabricate (and Bergman gave us a menu of amazing movie masterpieces) they don’t shield you from the fateful knocking at the door that interrupted the knight and his friends at the end of “The Seventh Seal.” And so, on a summer’s day in July, Bergman, the great cinematic poet of mortality, couldn’t prolong his own inevitable checkmate, and the finest filmmaker of my lifetime was gone.


