Como uma pessoa que passa muito tempo na internet e, principalmente, nos ambientes da internet em que pessoas falam de livros, eu desenvolvi um novo fascínio: todas as gringas que estão absolutamente obcecadas com a Clarice Lispector.
Não quero dizer que eu não entendo, eu também tive meu momento, mas muita coisa em como está acontecendo me intriga e mais do que tudo me intriga que elas estejam especialmente fissuradas em Água Viva, um livro que eu, leitora de Virgnia Woolf, assistidora de Tarkovsky, dei conta de Ulysses em três semanas, li 30 páginas e declarei ilegível. Porque me intriga, e porque eu não lia Clarice Lispector desde meus 20 e poucos anos, eu abri Uma Aprendizagem: Ou o Livro dos Prazeres no início de setembro.
Eu sou e não sou uma pessoa apegada ao objeto livro. Eu não sou no sentido de que eu (famosamente) quebro a lombada de todos os meus, carrego para cima e para baixo, deixo eles amassarem, se sujarem de café, eu almoço em cima deles, rabisco, grifo de marca-texto torto e colorido. Mas sou porque gosto de ter um livro na minha mão, troco edições feias por mais bonitas, compro físico livros que gostei demais e foram lidos no kindle. Eu não sou apegada ao livro enquanto objeto estético proposto, mas tenho uma relação intensa com o livro objeto vivido. Com os livros enquanto testemunho material de que eu estive ali.
E falo isso porque eu já tinha lido Uma Aprendizagem, mas não nessa edição. Inclusive, eu detesto essas capas novas e toda a minha lembrança afetiva de descobrir a Clarice está ligada às capas antigas, aquelas que pareciam ter desenhos do Modigliani na capa, mas eu acho que não eram Modiglianis. E também porque o que esse texto - e eu quero argumentar que esse livro - é sobre é um estar no mundo. Concreto, vivido, como testemunho material de que existimos.
Uma Aprendizagem é a história da Lori, uma professora de crianças pequenas de seus 20 e poucos anos que se envolve com um professor universitário de filosofia muito mais velho. E como um filósofo grego, esse homem quer ensinar Lori a se abrir radicalmente, a enxergar um relacionamento como uma presença total. Ele quer que Lori esteja violentamente no mundo.
Esse me parece o tema constante da Clarice, mesmo em A Hora da Estrela, o que de longe eu menos gosto: o mundo como lugar de espanto; estar vivo como uma experiência completamente desnaturalizada. Uma Aprendizagem é um livro em que isso aparece como beleza, mas não é sempre assim. Em A Paixão Segundo G.H e Perto do Coração Selvagem é horror e delírio. Mas não importa, é sempre espanto, sempre um descobrimento. E essa é minha hipótese de por que tantas mulheres de seus vinte e poucos anos se encantam completamente com esse encontro. Por que eu mesma fiz isso.
Eu sei que tenho escrito muito sobre isso, mas é porque sou eu mesma uma escritora de obsessões e porque enquanto eu me aproximava e então passava de fazer 36 anos essa ideia me pareceu urgente. E então menos. Ou ainda urgente, mas eu havia alcançado a urgência dela.
Eu não sou uma pessoa em paz com a ideia de envelhecer ou com o tempo que passa. Eu já falei disso outras vezes, mas eu tenho uma tendência à nostalgia e venho me batendo com não estar mais no centro da cultura. Eu também sou ambiciosa e perfeccionista e não poder mais ser um prodígio me assombra. Eu tenho ansiedades ligadas à corpo e aparência física que vem da experiência muito específica de não ter sido bonita e então ter sido muito bonita e saber exatamente o que ganhei e o que estou perdendo. Tudo isso é meu e vai me acompanhar por toda a vida. Mas tinha algo na passagem específica de ser jovem para não ser mais que vinha me atormentando e eu levei até agora para entender que era uma pressão para que eu estivesse no mundo de outra maneira. Ou melhor, para que eu estivesse menos no mundo.
Eu não vou falar de novo sobre sair de casa e ir dançar, porque não é a questão, embora seja também a questão. Ou a consequência. Quando você é jovem existe um entendimento coletivo de que é preciso aprender. De que você tem um mundo para descobrir, lições para internalizar, que tudo bem você ter todo tipo de experiência porque você está se moldando, que está ótimo começar e terminar relacionamentos porque eles te revelarão coisas sobre você e os outros e você com os outros. Porém, toda essa aprendizagem (ahem), todo esse descobrimento não é apenas por si só, pelo prazer ensandecido que é estar vivo e estar no mundo, é para que uma hora você assente, formado e ciente de quem é.
As drogas que você usou servem para que você descubra experiências sensoriais e entenda que a endorfina pós-corrida é tão boa quanto um alterador de consciência. Os relacionamentos que você entra e sai servem para que você entenda o que é se relacionar de forma saudável e então entre nessa relação duradoura e adulta em que as duas partes saberão se comunicar de forma clara e madura porque é isso que você supostamente tirou de todos aqueles corações partidos. A juventude tem um passe livre social para fazer qualquer coisa porque é uma escola, porque você está procurando, porque uma hora você deveria encontrar e se satisfazer com uma série de coisas.
Eu nunca na vida estive satisfeita. E eu não sou mais jovem.
Eu demorei muito para entender que toda aquela angústia vinha disso, desse entendimento de que meu tempo para experimentação e descoberta havia terminado e agora eu deveria usar tudo isso para…. o que?
Eu me lembro de que achei fazer 25 anos insignificante, 26 anos horrível e depois 27 uma delícia. 25 anos parecia significar uma curva que eu não via e aí aos 26 eu não só vi a curva como dei de cara com a parede porque não soube manobrar. Aos 27 eu já tinha passado dali, eu e minha bicicleta arrebentada, um pouco mais tortas, mais arranhadas, mas vivas. Fazer 36 se pareceu muito com isso.
Quando eu fiz 35 eu escrevi sobre a sensação de que eu tinha ganhado a briga, de que eu podia respirar. E eu fiz isso. Eu passei o ano seguinte respirando, ciente de que eu não tinha vivido uma juventude utilitarista, de que minhas experiências não serviam para que eu aprendesse algo sobre mim que então me libertasse das experiências. Que eu queria que viver fosse a experiência, um eterno encanto e surpresa e descobrimento do que é, afinal, estar no mundo.
E quando eu fiz 36 eu estava satisfeita, menos angustiada, menos tentando tornar tudo uma afirmação de onde eu estava e quem eu era. No dia mesmo eu declarei que queria ostras e um martini, nessa exata combinação porque eu queria sentir sal e estranheza na minha língua. Porque eu queria alguma coisa que me deixasse imediatamente consciente do meu corpo e suas terminações nervosas e sua capacidade infinita de retirar as camadas de um gosto, um cheiro, uma pele. Então, eu chamei meus amigos para um bar que nem sequer fazia reserva, eu deixei que eles enchessem sem parar a minha taça de vinho, eu fui dormir cedo e completamente bêbada. Eu acordei no dia seguinte e segui. No mundo.
Um mundo que eu não quero parar de estranhar. Ou de aprender. Eu não quero nunca não desmontar uma parte de um croissant com as mãos e ficar encantada com a textura que manteiga e farinha produzem. E eu sinto que eu virei uma curva em que eu não deveria estar tão no mundo assim, mas pouco a pouco vão parar de prestar atenção que eu ainda estou. Ou eu esperneei tanto que cansaram e me deixaram. Ou eu esperneei tanto que afastei as pessoas incomodadas com o chilique. Tudo isso pode ser. Tudo isso traz sua própria angústia, acontece. Veremos.
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Esse texto caiu exatamente quando eu precisava! Ontem antes de dormir eu estava refletindo sobre minha idade, (tenho 34, quase 35). E sobre a angústia de estar envelhecendo e o medo de não ter mais essa liberdade de quase fazer o que quiser dos 20, porque “ainda temos muito tempo” ou coisa assim. Seila, esse tema me pega muito e me vi muito no seu texto. Obrigada Isa ☺️
Li todos os livros aqui referidos de Clarice e estou de momento a ler a compilação de todas as crónicas. Arrisco dizer que a ânsia de Clarice em muito se assemelha à ânsia de Isadora. Obrigada pelo seu texto . 🌻