Ventos do leste
Um ensaio sobre paixão, nacionalidade, e Pesquisa de Campo Sobre o Sexo Ucraniano
Essa semana seria a da newsletter paga, porém, eu fecho o job e quem ganha o presente são vocês! Esse ensaio é uma parceria paga com a Editora CARAMBAIA para falar do lançamento deles Pesquisa de Campo Sobre o Sexo Ucraniano. Aproveitem o texto extra e vão atrás do livro, que é um negócio.
Muitos anos atrás, eu era jovem de um jeito que me dói de saudades e viajava sozinha pelo leste europeu. Eu tinha, por vários motivos, largado coisas aqui e decidido que ou eu escapava da minha vida, ou eu não ia sobreviver a ela e então eu passei três meses na Europa - a maior parte deles em países absurdos - meio sem plano, de vez em quando beijando garotos desconhecidos em longas noites de verão.
O primeiro deles foi em Sarajevo, em uma noite em que eu já deveria ter deixado a cidade, mas era copa do mundo, a Bósnia ia jogar, a cidade estava tomada e o dono do meu hostel meu convenceu que eu não podia ir embora, ele ia pedir pizza para todo mundo, ele trouxe um galão daqueles de água cheio de raki, eu precisava ficar. Eu fiquei, claro. Eu encontrei as duas brasileiras com quem tinha feito amizade e nós estacionamos em uma ruazinha onde um pub projetava o jogo em uma parede. Nós bebemos, fumamos e dois garotos - um americano, um bósnio - encostaram na nossa mesa.
Não é que eu não me lembre do nome desse garoto bósnio que eu beijei um pouco depois, é que eu acho que eu nunca entendi de verdade o nome dele. Mas eu me lembro que ele tinha olhos muito escuros e um cabelo cacheado que caía sobre a testa quando ele olhava para baixo, o que é basicamente a pior coisa que pode acontecer comigo. Eu lembro também que nessa mesa de bar nós conversamos sobre literatura, rimos histericamente do americano imitando um inglês aristocrata e quando, a caminho de um bar de jazz, nós paramos para esperar minha amiga amarrar o sapato, ele disse “eu vou te beijar agora” e fez exatamente isso.
O bar tinha um dia sido um bunker e quando nós entramos um clipe da Tina Turner passava no telão. Em certo momento, ele mergulhou o dedo em um copo de raki - uma bebida que eu na verdade odeio - deslizou-o pelos meus lábios e me beijou. Quando a gente saiu de lá, era quase dia e um homem saía de uma mesquita. Nós nos sentamos na calçada bem em frente, acendemos cigarros e conversamos sobre fé.
Ele me disse que gostaria de ser como esse homem, seis da manhã de um sábado e ele já tinha rezado, que ele queria acreditar dessa forma, mas não conseguia. Eu assenti e falei da minha crença sem forma, do meu encanto com o mundo, eu tinha acabado de vir de Roma e Veneza e tinha que haver alguma coisa se nós íamos ser capazes de fazer Veneza. Quando eu terminei de falar, ele me beijou de novo, longamente, a fumaça dos nossos cigarros se misturando. Então, ele me puxou pela mão até a parede da mesquita e apontou: olha.
Eu demorei um tempo, então vi, os buracos de bala na parede inteira. Enquanto eu corria minha mão por eles, ele me contou que o Drina é um rio que divide a Bósnia e a Sérvia e é também o nome de um livro do Ivo Andric que eu deveria ler (na verdade, A Ponte Sobre o Drina e eu ainda não li) e ainda da marca de cigarros que ele fumava quando estava na Bósnia. Eu achei que você fosse bósnio, eu disse, sim e não, ele me respondeu.
Meio frasco de tranquilizantes e uma navalha - e me perdoem pela estreia malsucedida. Eu sinceramente tentei, com toda a minha consciência, mas, considerando que o resultado foi um desastre completo, o mais honesto é entregar os pontos - nunca fui boa jogadora, e a partir de agora só vai piorar: não vejo luz no fim do túnel e já não tenho forças: não sou mais uma menina.
No entanto - não, hoje não.
Então ele me contou, que tinha nascido em Sarajevo, no mesmo ano que eu, que sua família tinha ido embora no início das coisas, antes do cerco, quando ainda se podia ir embora, e que ele tinha crescido na Turquia, mas não era turco, ou era um pouco, mas não totalmente, era também bósnio. Eu sorri, eu sei, eu disse. Acontece, ele continuou, que aqui eu não sou bósnio e nem é pelo sotaque ou a quantidade de anos fora, é porque eu não vivi o cerco, porque meus amigos, as pessoas da nossa idade, todo mundo teve uma infância e eu tive outra.
Eu vinha pensando muito nisso, a Guerra dos Bálcãs o primeiro evento histórico de que eu me lembrava, 92, 93 e as imagens de algo que eu só fui entender muito depois na televisão. Eu pensara nisso dançando em uma balada em Belgrado, lendo nos cafés de Sarajevo e eu pensaria nisso estirada em praias de pedra da Croácia, vendo garotas da minha idade de biquini virando doses em bares. Eu tinha notado os buracos de bala, os bunkers reformados, a intensidade específica das pessoas com quem eu cruzava.
Como retribuição, eu contei do meu avô e sua Varsóvia, dos meus pais e a ditadura, de mim e algo teimosamente europeu quando eu sabia que deveria abrir mão disso. “E se a gente ficasse mais um dia em Sarajevo?” ele me perguntou. E porque, apesar de eu sequer ter entendido o nome dele, eu já sabia que lembraria do cheiro daquele garoto por anos, que pensaria sem parar nessa conversa e nessa noite e nessa mesquita cravejada de balas, eu respondi “e se a gente fosse para o meu quarto?”
Quando eu comecei a ler Pesquisa de Campo Sobre o Sexo Ucraniano, eu lembrei imediatamente dessa noite, no tipo de associação que a minha analista me cobra muito caro para desemaranhar. Pode ser o leste europeu, pode ser essa ideia de um amor súbito, fugidio, mas eu acho que tem algo a ver com pensar a vida em tempos de guerra. Isso porque, quando eu vi o nome do livro, sem saber mais nada sobre ele, minha cabeça decidiu que se tratava de algo atual, talvez uma não ficção sobre a teimosia da vida na Ucrânia.
(Eu sou obcecada com esse assunto, eu já ouvi podcasts e li artigos e vi entrevistas sobre como, ano após ano, as pessoas festejam em Kiev. Elas dançam e usam drogas e saem porque a vida é isso, a vida é ir para a balada em tempos de guerra).
Mas o livro não é atual, ele é de 1994 e nele uma poeta chamada Oksana vive nos Estados unidos e narra, aos pedaços, sua paixão avassaladora por um pintor ucraniano. Em certo momento ela diz:
o principal, ladies and gentlemen, consiste no fato de que, na vida da pesquisada, esse foi o primeiro homem ucraniano. Verdade — o primeiro.
É claro que ela não quer dizer o primeiro homem nascido na Ucrânia, ou o primeiro homem crescido na Ucrânia, ou ambos, mas o primeiro ucraniano enquanto constituição, ou seja:
O primeiro já pronto — a quem não era necessário ensinar a língua ucraniana, coagi-lo para um encontro tão-somente a fim de ampliar o espaço interno de mútuo entendimento, livro após livro da própria biblioteca
Ou seja, ucraniano como aquele garoto, crescido em Istambul, que me beijou nas ruas de Sarajevo e que declarou, uma urgência tocante em seus olhos muito escuros, que era bósnio e eu assenti, sorri e acariciei o rosto dele, mas não disse nada, porque se tem algo que eu não sei é me sentir tão inequivocamente alguma coisa.
Minha primeira paixão avassaladora foi por um garoto que lia os mesmos livros que eu (embora escondido, ele era popular e eu era esquisita) e com quem eu conversava sobre Kerouac no telefone de madrugada. A segunda, foi pelo primeiro menino judeu que eu beijei na vida, presa em uma cidade onde eu era basicamente a única, e que sabia o que Bikini Kill era. Nos dois casos, eu fui seduzida por uma língua em comum, pela ideia de que eu não precisava ensinar a eles os marcos da minha paisagem.
Não é que eu não acredite em relacionamentos entre pessoas diferentes, acho até que tem algo do mostrar seu mundo para a outra pessoa que favorece as coisas que duram. Mas a paixão, essa coisa que vem de uma vez e te atropela, quase sempre acontece no encontro, na sensação de ser profundamente vista, dolorosamente compreendida, quase como se aquela pessoa já te conhecesse antes de te conhecer. Como se vocês falassem a mesma língua. O que talvez explique porque em geral a paixão não dura, porque o desejo de fusão é também o confronto inescapável com a sua impossibilidade.
Oksana descobre isso no livro, ou melhor, ela descobre que a ilusão da fusão, ainda mais uma nascida do sentimento nacional, não sobrevive à distância: quando Mikola vai visitá-la nos Estados Unidos, tudo nele a irrita, mas especialmente que ele não fale inglês e que ele seja tão terrivelmente ucraniano. De perto, na Ucrânia, ele é a melhor encarnação do espírito nacional. De longe, nos Estados Unidos, a pior.
A distância é um elemento curioso na paixão. Às vezes, afogada no sentimento de que não sabe sequer respirar longe daquela pessoa, você se afasta e descobre que, veja só, eu criei guelras. Às vezes, ela vai se esculpindo em uma escultura invisível que tem o formato exato daquele corpo, daquele peso. Eu já achei que uma paixão ia sobreviver a qualquer coisa e ela não durou uma semana com a pessoa longe de mim. Eu também já contei com um mês para matar uma paixão que não devia ter sido alimentada e ele foi como jogar gasolina em uma fogueira. Quem diria, não é, que a paixão é uma ciência inexata.
A paixão pelos lugares funciona de forma parecida. Meu avô, mesmo quando poderia ter feito isso, nunca voltou à Polônia. Eu, quando estive em Varsóvia, chorando todos os dias em bancos de parque, entendi o por quê: teria sido como amar alguém muito jovem e reencontrá-la na velhice. Ali, naquele leste europeu que era meu ainda que não fosse, eu entendi essa impossibilidade e esse amor e eu entendi também que eu jamais poderia viver ali. Claro, eu me sentia em casa de um jeito onírico, ancestral, sobrenatural quase. Mas essa casa - exatamente como a casa da minha família - ia acabar me matando no final, me sufocando na melancolia que eu trouxe de lá, que nós todos trouxemos de lá.
A língua que, vale dizer, você e algumas centenas de almas em todo o mundo conhecem -, ela sempre acompanha você, como uma concha de caracol, e não haverá outra, mulher, outra casa permanente, não importa o que você faça.
Oksana, detestando os Estados Unidos, mas incapaz de voltar, parece reconhecer a mesma coisa: que a Ucrânia é o material da sua alma, mas que talvez essa alma precise de distância. Que os países, como as pessoas, às vezes só é possível amar de longe. Que sua Ucrânia - e, portanto, seu homem ucraniano - é trágica, melodramática, submissa, tempestuosa, melancólica, suicida. De longe, há algo de interessante em ser tudo isso, por um tempo é fascinante amar um homem assim. Por tempo demais, acaba com você.
Foi então, bem no final do livro, que eu entendi esse título: não é uma pesquisa sobre como os ucranianos fazem sexo, mas sobre o sexo para a alma ucraniana. Sobre essa intimidade absurda das línguas, das paisagens, das identidades. Como aquele menino que nem me conhecia e declarou com tanta firmeza “eu sou bósnio” e eu, que o beijava no meio da rua, entendi tudo que ele queria dizer.
Todas as imagens são de Antes do Amanhecer e todas as citações de Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano, da Oksana Zabuzhko






Lendo teu texto eu pensei tanto na minha experiência de adotiva, mas esse nó aí eu deixo pro meu analista desenrolar na próxima sessão.
Esse texto me levou direto pra essas paixões rápidas que marcam a vida inteira. Bonito demais pensar que às vezes a gente se apaixona também por uma língua, um lugar, um jeito de existir.